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O Lama, o Jardineiro e o Lótus
Por Gustavo   
18 de July de 2005

"A recente passagem do Lama Samten por São Paulo para a realização do Retiro de Araçoiaba e de algumas palestras na cidade irrigou sementes preciosas adormecidas na experiência cotidiana de nossas vidas.

Os ensinamentos proferidos permitiram a lembrança e o resgate de paisagens de sabedoria que, de alguma forma já habitam dentro de nós, mas que devido à cegueira em que estamos imersos perdem o brilho, recobertas por espessas camadas de pó.

Testemunhamos em diversas ocasiões lições sobre a compaixão, o amor e a equanimidade possíveis como respostas aos desafios colocados pela ignorância e pelas perturbações que povoam a nossa vida cotidiana.

Fomos também presenteados com chaves valiosas para nos relacionarmos conosco mesmos, com nossos semelhantes próximos e distantes e com o meio ambiente global no sentido da construção de relações mais estáveis e positivas.

A prática da compaixão é uma dessas lições valiosas que tem sido esquecida em nossas relações e na cultura utilitária, competitiva, individualista e egocentrada que é a marca da sociedade capitalista. Ouvimos ou assistimos freqüentemente evocações à chamada “Lei do Gerson”, isto é, à idéia de que devemos sempre procurar levar vantagem em tudo que vivenciamos. Este parece ser um dos “mantras” mais visitados nos dias atuais.

Aparentemente, falar e agir com compaixão em uma cultura onde a Lei do Gerson virou quase um “mandamento social” transparece uma imagem de ingenuidade, fragilidade e vulnerabilidade. Acomete-nos a perplexidade e ficamos nos perguntando como é possível cultivar a compaixão no ambiente árido e, aparentemente hostil das relações contemporâneas? Contudo, se aprofundamos a reflexão e desafiamos a experiência outra realidade transparece.

A compaixão frágil à primeira vista revela seu poder inigualável porque repousa na lei da própria vida. Então, quando você sustenta a vida a vida também lhe sustenta. Se você sinceramente procura o benefício dos outros, esses outros inevitavelmente vão responder de uma forma positiva retribuindo esse benefício e nisso outra ordem de relação passa a operar. É como se você passasse a não mais se opor a vida, mas agir e trabalhar a seu favor, substituindo o esforço e o conflito pela cooperação. Nesse processo, a dualidade ou separatividade se transforma em unidade, interexistência e inseparatividade. O rio simplesmente corre para o mar.

A compaixão e o amor como leis sutis da própria vida transcendem e superam o egoísmo e o ódio. É a água furando a pedra, a fragilidade vencendo a força. Aparece nesse processo um novo tipo de aritmética onde o ato de dar não reduz o seu patrimônio, mas ao contrário o multiplica.

Em suas falas o Lama lembrou diversas vezes a metáfora do jardineiro, como sendo aquele que olha para as plantas não procurando nelas utilidades ou vantagens, mas procurando sentí-las a partir de seu próprio contexto e de suas necessidades. Então, dá-lhes a terra, a luz e a água de que precisam. Nesse diálogo assiste a alegria da planta e essa mesma felicidade retorna irradiando-se também sobre ele.

Olhar a vida como o jardineiro, com compaixão é de fato uma atitude singela e paciente que envolve a capacidade de escuta silenciosa e em tudo sugere uma atitude delicada. No fundo, entretanto, guarda o poder oculto de transformar o lodo do mundo numa bela flor de lótus. Essa imagem nos ensina a lição de que estamos no mundo e precisamos nele viver, dele aprender e com ele crescer, mas não precisamos ser mundanos. Ou seja, nós estamos e vivemos no mundo, mas o mundo não nos domina, não nos aprisiona já que temos sempre a possibilidade de agir com liberdade e de descobrir chaves e trilhas de libertação. O caminho do jardineiro como imagem da compaixão é uma delas."

 
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Lama SamtenFundador do CEBB e do Instituto Caminho do Meio, Lama Padma Samten foi ordenado por Chagdud Tulku Rinpoche. Saiba mais...

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